Ensinar bem não é apenas conhecer o conteúdo. É saber o que fazer quando a resposta não vem, quando vem pela metade — e até quando vem correta.
Seu filho olha para a pergunta e responde:
— Não sei.
Você explica novamente.
Ele responde alguma coisa próxima do que deveria.
Você percebe que ele entendeu “mais ou menos”, diz “isso mesmo” e segue em frente.
Ou, depois de uma resposta correta, sente que a missão está cumprida e passa imediatamente para a próxima questão.
São situações pequenas. Tão pequenas que dificilmente pensamos nelas como decisões pedagógicas.
Mas são justamente esses pequenos momentos que, repetidos todos os dias, ajudam a formar a maneira como um estudante aprende.
No livro Aula Nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência, Doug Lemov parte de uma ideia bastante interessante: ensinar é uma arte, mas uma arte sustentada pelo domínio de técnicas concretas.
O autor chegou a essas técnicas observando professores que obtinham resultados acadêmicos excepcionais e procurando identificar não apenas o que eles acreditavam sobre educação, mas aquilo que efetivamente faziam durante suas aulas.
Para Lemov, há uma diferença importante entre uma grande ideia pedagógica e uma técnica. Podemos acreditar que devemos ter altas expectativas, estimular o pensamento ou desenvolver autonomia. Mas a verdadeira dificuldade aparece alguns segundos depois:
O que eu faço, concretamente, quando meu aluno diz “não sei”?
É aí que a técnica entra.
E algumas das práticas descritas por Lemov para uma sala com muitos alunos podem ser extremamente úteis também na educação em casa — naturalmente adaptadas à relação entre pais e filhos.
Aqui estão quatro delas.
1. Sem Escapatória: “não sei” não precisa encerrar a aprendizagem
Uma das primeiras técnicas apresentadas por Lemov recebe um nome bastante expressivo: Sem Escapatória.
A ideia não é constranger o estudante nem exigir que ele saiba aquilo que ainda não aprendeu.
É outra coisa.
Se uma interação começa com o aluno incapaz de responder a uma pergunta, sempre que possível ela deve terminar com aquele mesmo aluno conseguindo chegar à resposta correta.
Imagine:
— Qual é o sujeito desta oração?
— Não sei.
É muito fácil simplesmente responder:
— O sujeito é “o menino”.
E continuar a aula.
Mas, dessa maneira, o adulto realizou todo o trabalho intelectual.
Em vez disso, podemos oferecer uma pista:
— Lembre-se: para encontrar o sujeito, queremos descobrir de quem ou do que a oração está falando. Leia novamente.
O aluno tenta outra vez:
— Do menino.
— Então qual é o sujeito?
— O menino.
Agora aconteceu algo completamente diferente.
O estudante não permaneceu no “não sei”. Ele passou pela dificuldade e terminou a interação sabendo algo que alguns segundos antes não conseguia identificar.
Em outros momentos, talvez seja necessário dar a própria resposta e pedir que ele a repita. O objetivo não é transformar toda dúvida em uma longa investigação, mas criar um princípio simples:
não saber é permitido; abandonar o esforço não precisa ser.
Isso muda gradualmente a postura diante do estudo.
Em vez de aprender que “não sei” encerra uma pergunta difícil, o estudante aprende que existe um caminho entre não saber ainda e conseguir responder.
E talvez essa seja uma das lições mais importantes de toda educação.
2. Certo é Certo: não transforme uma resposta quase correta em uma resposta correta
Existe uma tentação muito comum quando ensinamos alguém que amamos.
Queremos encorajar.
Então fazemos uma pergunta, recebemos uma resposta aproximadamente correta e completamos:
— Isso! Exatamente. E também...
Só existe um problema.
Às vezes, o “também” que acrescentamos era justamente a parte que faltava para que a resposta estivesse correta.
Lemov chama a atenção para essa diferença na técnica Certo é Certo.
O princípio é simples:
uma resposta parcialmente correta ainda não é uma resposta completamente correta.
Isso não significa tratar o erro com severidade.
Podemos dizer:
— Você começou muito bem. Falta uma parte.
Ou:
— Está quase. Pense mais um pouco.
Ou ainda:
— Gostei do caminho que você fez. Agora tente tornar sua resposta mais precisa.
Imagine que o estudante seja perguntado:
— O que é uma península?
E responda:
— É uma terra perto da água.
Há alguma compreensão ali.
Mas ainda não há uma definição suficiente.
Em vez de dizer “certo” e completar a resposta pelo aluno, podemos perguntar:
— Perto da água de que maneira? O que diferencia uma península de outras porções de terra?
Até chegar a algo semelhante a:
— É uma porção de terra cercada por água em três lados.
Agora, sim.
Parece uma diferença pequena, mas não é.
Ao aceitar sistematicamente respostas imprecisas, ensinamos involuntariamente ao estudante que aproximação e domínio são a mesma coisa.
Não são.
Há espaço para elogiar esforço, progresso e raciocínio sem chamar de correto aquilo que ainda precisa ser completado.
E existe outra vantagem: exigir precisão comunica uma expectativa silenciosa.
“Eu sei que você consegue chegar lá.”
3. Puxe Mais: a resposta certa pode ser o começo, e não o fim
Esta talvez seja uma das técnicas mais interessantes para famílias que desejam ir além de exercícios mecânicos.
Seu filho respondeu corretamente.
Excelente.
Agora vem a pergunta:
E se você não parar aí?
Lemov chama essa técnica de Puxe Mais.
Em vez de considerar a resposta correta como o encerramento automático da aprendizagem, o educador a utiliza como ponto de partida para um passo intelectual adicional.
Uma criança responde:
— A distância é de 600 quilômetros.
Você poderia simplesmente dizer:
— Correto.
Ou poderia perguntar:
— Como você descobriu?
Ela explica.
Então:
— Existe outra maneira de chegar ao mesmo resultado?
Ou:
— Como você provaria isso?
Ou ainda:
— Essa mesma regra funcionaria neste outro exemplo?
De repente, uma questão que verificava apenas se o estudante encontrou a resposta começa a verificar se ele compreendeu o raciocínio.
Em literatura, isso pode ficar ainda mais interessante.
— Como você descreveria esse personagem?
— Ele é orgulhoso.
Em vez de encerrar:
— Que parte do texto faz você pensar assim?
Agora o estudante precisa procurar evidências.
Depois:
— Há algum momento da história que parece contradizer essa interpretação?
E uma pergunta aparentemente simples se transforma em análise.
Há várias maneiras de “puxar mais”:
perguntar como ou por quê;
pedir uma evidência;
solicitar uma palavra mais precisa;
apresentar um caso diferente;
pedir outra maneira de resolver o mesmo problema;
relacionar o que acabou de ser aprendido com um conhecimento anterior.
O princípio é particularmente valioso porque combate uma confusão frequente: achar que aprender significa apenas acertar.
Às vezes, uma resposta correta demonstra domínio.
Às vezes, demonstra apenas memória, coincidência ou compreensão parcial.
Uma pergunta a mais pode revelar a diferença.
E, para o estudante que realmente compreendeu, essa pergunta adicional transmite outra mensagem:
o prêmio por saber mais é poder pensar mais profundamente.
4. Boa Expressão: não basta saber; é preciso aprender a dizer bem
Um estudante pode compreender uma ideia e ainda assim ter dificuldade para expressá-la.
Por isso Lemov inclui, entre as técnicas de altas expectativas acadêmicas, aquilo que chama de Boa Expressão.
A preocupação aqui não está apenas com o conteúdo da resposta, mas com a maneira como o conhecimento é comunicado.
Considere esta conversa:
— Por que o exército perdeu a batalha?
— Porque eles estavam cansados.
A resposta talvez esteja correta.
Mas podemos avançar:
— Responda com uma frase completa.
— O exército perdeu a batalha porque os soldados estavam cansados.
Em outro momento:
— Quem era o protagonista?
— Pedro.
— Em uma sentença completa.
— Pedro era o protagonista da narrativa.
Não parece uma mudança extraordinária.
Mas imagine esse exercício realizado constantemente durante anos.
A criança aprende a organizar pensamentos em frases completas, estabelecer relações entre ideias, empregar vocabulário preciso e transformar aquilo que sabe em linguagem inteligível.
Isso importa muito.
Porque conhecimento que não conseguimos formular com clareza muitas vezes ainda não está completamente organizado em nossa própria mente.
Também podemos pedir:
— Há uma palavra melhor para isso?
— Você consegue explicar sem usar “coisa”?
— Qual é o termo específico que aprendemos hoje?
— Diga novamente, agora de maneira mais precisa.
Não é necessário corrigir cada frase espontânea pronunciada durante o dia.
A casa não precisa se transformar numa sala de aula permanente.
Mas durante o tempo de estudo, podemos estabelecer uma expectativa diferente para a linguagem.
Há momentos de conversar informalmente.
E há momentos de aprender a falar como alguém que está pensando cuidadosamente.
Altas expectativas não significam dureza
Talvez seja este o ponto que une as quatro técnicas.
Ter altas expectativas não significa esperar que o estudante nunca erre.
Significa justamente saber o que fazer com o erro quando ele aparece.
Em Sem Escapatória, não abandonamos o aluno porque ele ainda não sabe.
Em Certo é Certo, não fingimos que uma resposta incompleta já está pronta.
Em Puxe Mais, não interrompemos o pensamento apenas porque apareceu a primeira resposta correta.
Em Boa Expressão, não separamos completamente aquilo que o estudante pensa da maneira como aprende a comunicá-lo.
Todas elas carregam, de formas diferentes, a mesma mensagem:
“Isso que estamos estudando importa. E eu acredito que você é capaz de fazê-lo bem.”
Talvez aí esteja uma das contribuições mais interessantes de Doug Lemov.
Muitas vezes pensamos que a qualidade da educação depende de grandes mudanças: um currículo novo, um método diferente, materiais melhores, mais tecnologia.
Tudo isso pode ter importância.
Mas uma parte extraordinária da formação acontece em decisões quase invisíveis:
na pergunta que fazemos depois da primeira resposta;
nos segundos que concedemos para que o aluno pense novamente;
na palavra mais precisa que pedimos;
na decisão de não completar aquilo que ele ainda pode descobrir sozinho.
São pequenas técnicas.
Mas educação é justamente assim.
Grandes formações são construídas, muitas vezes, por pequenas coisas repetidas com intenção.
Referência
LEMOV, Doug. Aula Nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência. Tradução de Leda Beck. São Paulo: Da Boa Prosa/Fundação Lemann, 2011. Obra original: Teach Like a Champion.
